AUDÍSIO BATISTA VENÂNCIO¹
venancio.prof.historia@gmail.com
[...] não pode existir história sem memória,
ainda assim a memória não é história, as duas são representações do passado,
mais a história tem como objetivo a exatidão da representação enquanto a
memória somente tem a pretensão de ser verossímil.
Joel Candau,
Antropologia da Memória, 2002.
Professor Naranjo (2024) apresenta o seu
proferimento no You tube, no canal da EBC na rede (05:07), ele discorre a
respeito da revisão temática em Áfricas Negras, Caribenhas, Mestiças e suas
diásporas, para isso, dialoga o revisionismo cultural antropológico com ritos
de passagens nas artes visuais e musicais, na religião e no comportamento
social, Naranjo (2024) inicia (06:01) o discurso com a nomenclatura
populacional primitiva outrora a passagem do Genovês Cristóvão Colombo (1451-1506?),
em suas aventuras colonizadoras nas adjacências do Continente Sul Americano (06:29),
cita os povos nativos Pindorama, Yucatan, Cubancan, Tawantissuyu e Anauhuac,
Naranjo (2024) frisa que o fato da denominação do Continente ser “ÁMERICA” é
uma homenagem épica ao Geógrafo Navegador Italiano Américo Vespúcio (1454-1512?).
As populações negras africanas, sejam homens,
mulheres e crianças, foram escravizados e trazidos ao continente americano por intermédio
de conflitos tribais rivais, do comércio afro-europeu e da pirataria, pontua
Naranjo (2024) (11:47)
Naranjo (2024) leva-nos a refletir (14:27) que a América
é uma nova oportunidade de lucros para os europeus, eles despertaram interesses
e ascensões, todavia esse ascendimento geraram uma anomia populacional direta
aos escravizados, haja vista, um verdadeiro genocídio, para fomentar um
comércio triangular, onde importa e exporta diversos gêneros de manufatura e
até de pessoas, tais como: peixes, melaço, cereais, bebidas alcoólicas,
madeiras, tecidos, ferragens e etc., gerando lucros altíssimos para os seus
destinatários negociadores.
Naranjo (2024) dialoga com Jimènez (1980),
geógrafo, que comandou uma expedição que rumou do Amazonas ao Caribe, nesta (11:53),
identificou a diáspora indígena caribenha, aos quais foram identificados como:
caribes, caríbas, kalinago ou Karibis, na percepção antropológica esses grupos
eram rivais, disputando interesses classistas, entre essa rivalidade surgia
ações violentas, a ótica ocidental, para explicar esse fenômeno antropofágico, ocorrido
entre os séculos XVII e XVIII, Naranjo (2024) deleita-se dos saberes em artes
cênicas de Willian Shakespeare e da escrita de Roberto Fernándes Retamar, o
pensamento Shakespeariano (14:54) explica essa construção antropológica a
partir do personagem Cáliban na obra “The Tempest”, Retamar (1970) escreve o
ensaio Caliban Y otros ensayos, lê-se: “um texto que propõe uma reflexão ao
movimento antropofágico universal, o canibalismo”, discutido no proferimento de
Naranjo (2024), é cultural e regional referente a população indígena que entre
as disputas tribais, comiam um pedaço do corpo do guerreiro abatido no
conflito, respeitando o ato épico heroico ofertado em batalha, alimentando-se
desse pedaço humano, os indígenas acreditavam estar servindo-se da força
física, moral e intelectual de seu algoz, deveras a observação etimológica
atribuída a palavra canibalismo, esta referida ao personagem Cáliban,
supracitado neste labor.
Quanto a construção Nacional de uma determinada
nação, os quesitos culturais, as tradições, os atos políticos e sociais,
Naranjo (2024) explica que as contribuições dos africanos escravizados foram
tenazes, para essa afirmação Naranjo (2024) sustenta-se do antropólogo Frans
Boas (1858-1942) e do pensador Melville Jean Herskovits (1895-1963), assim
Naranjo (2024) é contundente ao proferir que o Caribe é rico culturalmente,
devido a influência da população negra africana e dos ciganos, denominados “Los
Curros”, que essa somatória de padrões socioculturais originaram o ritmo e o
swing caribenho, tal como, o seu carnaval e as manifestações artísticas, Naranjo
(2024) infere ao seu ouvinte ao questioná-lo: “o melhor carnaval do mundo é o
brasileiro?, é o da Bahia ou do Rio de Janeiro?, e pergunta: _ você já foi ao
Caribe?, Oportunou divertir-se ao majestoso som e dança calorosa caribenha?, deliciou-se
do carnaval em Martinica?, contudo o que
importa nessa hipótese não é disputa das tradições carnavalescas de uma
determinada região, e sim, a importância da promoção da força da mão-de-obra
escravizada, seja na agricultura (plantation), ou na religião, como o Vodu, Candomblé
e entre outras, nos cânticos melódicos que originou as músicas religiosas com participação
do cristianismo católico, os pontos da umbanda, vocativos de súplicas divinais,
lamentos de sofrimentos ou bálsamos para suas vidas desgraçadas pela ambição
humana eurocêntrica, para contextualizar esse raciocínio Naranjo (2024)
atribui-se do saber do romancista Antonio Benitez Rojo, no texto “La islã que se repite: para uma
reinterpretación de la cultura caribeña, 2009. (NARANJO, 2024)
Para ratificar a construção ideológica, cultural e
geográfica nas Américas, é conclusiva a participação da influência negra
africana no Continente Americano, esta composição pluralista de culturas aos
quais conviviam em um único território, seja africana, cigana ou indígena
compôs a miscigenação sociocultural americana. Sob, esta visão ideológica sigo
com o pensamento de Naranjo (2024) que cede espaço teórico para fomentar o
termo “branco”, (1:00:54) que ao pensamento indígena era invasor, ora defensor
social e amigo, ora inimigo e ladrão de seus pertences, ao ponto de escravizá-los
para conseguir empoderamento e tomada de território, não pode de deixar de
citar a presença feminina, “a mulher negra escravizada”, Leyda Oquendo Barrios
(1970), (1:05:33) valoriza os estudos afro-latino-andino, e retrata a mulher
negra caribenha descendente da mãe África como guerreira e participativa no processo
de quilombismo, cimarronaje e marronage, e destaca Meichora, Carlota Conga,
Fermina Lucumí, Escrava Anastácia, Nanny Capitana de Palenques como líderes
importantes nos movimentos rebeldes para o rumos do abolicionismo ao entorno do
Globo Terrestre.
O Brasil e o Caribe são criativos no enfoque de
formação histórico-cultural, Naranjo (2024) com Lélia Gonzales (1:13:32) apresentam
a categoria político – cultural de amefricanidade, cujas latinidade é marcante
nos povos das américas, com formações do inconsciente europeus, brancos originais,
neste contexto não apenas pretos ou pardos, negrito ao termo normativo do IBGE/Brasil,
estão em destaque, mas toda a população brasileira devem ser consideradas Ladinoamefricanos. Para Luz Maria Martínez Montiel,
[...] não há região ou cultura do continente, nem setor social, nem qualquer
atividade econômica que não seja marcada pela presença negra africana, citação
proferida (1:10:11), por Naranjo (2024).
Os poemas anexos comunicam-se com a apresentação de
Naranjo (2024) no vídeo aula depositada na plataforma You Tube, ministrada (01:50:29) pelo professor Julian Moracen Naranjo (2024), e traz
para o debate os escritores Langston Hughes (1998) e Derek Walcott (2016), com descrições
e representações descritas às tradições culturais e regionais, políticas
sociais, ao intelecto e a geografia natural observadas na população Ladinoamefricanos,
termo adotado pela pensadora Lelia Gonzales.
ANEXO I
MAPA DO NOVO MUNDO
Arquipélagos, I
Ao fim desta frase, começará a chover.
Pela margem da chuva, um barco.
Veleiro longeando a visão das ilhas;
a crença nos portos de toda uma raça
adentra a neblina.
A guerra de dez anos finda.
O cabelo de Helena, uma nuvem cinza.
Tróia, fosso branco
no mar garoante.
Os pingos se esticam como cordas de harpa.
Um homem de olhos brumosos colhe a chuva
e brota a primeira linha da Odisseia.
ANEXO II
Desfecho
Vivo nas águas,
solitário. Sem mulher nem filhos.
Atravessei todas as possibilidades
para chegar até aqui:
pequena casa em água cinza,
janelas sempre abertas
para o velho mar.
Não escolhemos o destino,
mas somos o que fizemos.
Sofremos, os anos passam,
lançamos a carga fora, mas não a necessidade
de obstáculos. O amor é uma pedra
no leito do mar
debaixo da água cinza. Agora, nada mais quero
da poesia senão o coração.
Não quero a piedade nem a fama nem a cura. Silenciosa
esposa, contemplamos a água cinza,
e numa vida repleta
de mediocridade e lixo
vivemos como rocha.
Devo desaprender sentimentos,
esquecer meu dote.
Isto é maior
e mais difícil do que o que se entende por vida.
ANEXO III
EU
TAMBÉM SOU AMÉRICA
Também
canto a América
Sou
seu "brother".
Quando
chega alguém,
Eles
me mandam comer na cozinha
Mas
eu rio,
Como
bem,
E
fico forte.
Amanhã
Sentarei à mesa Quando chegar alguém.
Então
ninguém se atreverá
A me
dizer
"Coma
na cozinha".
Aí
eles vão ver como sou bonito
E
ficarão envergonhados.
Eu
também sou a América.
HUGHES,
Langston. Eu também sou América. Tradução de Sylvio Back, Caderno
Mais!
Folha
de São Paulo, 15 de fevereiro de 1998.
FONTES DE CONSULTAS:
Revisitada/aula 01 Revisitando Áfricas e diásporas
aficanas. EBC 2012. 1 vídeo (01:50:29).
Disponívelem: https://www.youtube.com/watch?v=7izNOO_AsUU&t=3936s&ab_channel=UABUNIFESP
acesso em: 15 nov. 2024.
HUGHES, Langston. Eu também sou
América. Tradução de Sylvio Back, Caderno Mais! Folha de São Paulo,
15 de setembro de 2024. Disponível: https://www.ufrgs.br/cdrom/hughes/hughes.pdf
WALCOTT, Derek. Um
Grito Distante da África. Tradução: Alberto Pucheu. In: Derek Walcott,
por Alberto Pucheu, Revista Escamandro: Poesia, Tradução, Crítica, online 15/09/2024.
Disponível em: https://escamandro.com/2016/09/14/derek-walcott-por-alberto-pucheu/
Audísio Batista Venâncio é pesquisador e professor de história na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo - SEDUC/SP. Licenciado em história pela UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS (UNIMES), especialista lato sensu em: As Áfricas e suas diásporas e em Filosofia Educação pela UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP), e na UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC (UFABC) especializou-se em: História da Ciências, Educação e Sociedade e em Educação Especial e Inclusiva e na FACULDADE DE CARAPICUÍBA (FALC) em Direito Educacional.

Deixe seu comentário.